Pergunte a um produtor brasileiro quanto vale a saca de soja e ele dira um valor em reais. Mas por tras desse numero esta o dolar - sempre. O agro brasileiro e uma das atividades mais dolarizadas da economia, e entender como o cambio funciona dos dois lados (receita e custo) e fundamental para enxergar de onde vem, e para onde vai, a margem da fazenda.
A receita em dolar disfarcada de real
As principais commodities agricolas brasileiras - soja, milho, cafe, algodao, acucar - sao negociadas em referencia a bolsas internacionais, cotadas em dolar. Mesmo quando voce vende para uma cooperativa ou trading no Brasil e recebe em reais, o preco foi formado a partir da cotacao internacional em dolar, convertida pelo cambio do dia, ajustada pelo basis (o premio ou desconto regional) e pelo frete.
Na pratica, isso significa que quando o dolar sobe, o preco em reais da sua soja tende a subir tambem, mesmo que a cotacao internacional fique parada. Por esse lado, dolar alto e bom para a receita do produtor exportador.
O custo tambem em dolar
Mas ha o outro lado. Boa parte dos custos de producao do agro brasileiro tambem e dolarizada:
- Fertilizantes: o Brasil importa a maior parte do que consome. Adubo e custo em dolar, direto.
- Defensivos: muitos principios ativos e produtos sao importados ou tem forte componente cambial.
- Maquinas e pecas: equipamentos e componentes tem preco atrelado ao cambio.
- Combustivel: o preco dos combustiveis tem relacao com o petroleo, cotado em dolar.
Entao quando o dolar sobe, o custo de producao tambem sobe. Por esse lado, dolar alto e ruim.
A conta liquida: depende do timing
Como o dolar afeta receita e custo simultaneamente, o efeito liquido sobre a sua margem depende muito do timing. Se voce comprou os insumos quando o dolar estava baixo e vai vender a producao com o dolar alto, ganha dos dois lados. Se foi o contrario - comprou insumo caro com dolar alto e o dolar caiu na hora da venda - voce e espremido nas duas pontas.
E por isso que o planejamento de compra de insumos e de comercializacao da safra e tao estrategico. Nao se trata so de "que preco", mas de "que cambio embutido naquele preco, e como ele se relaciona com o cambio da minha venda futura".
O produtor como gestor de risco cambial
Goste ou nao, o produtor moderno e tambem um gestor de risco cambial. As ferramentas para lidar com isso incluem o escalonamento de compras e vendas (para diluir o risco de timing), o uso de mecanismos de trava de preco e cambio quando disponiveis e adequados ao perfil, e principalmente o acompanhamento atento do mercado. Isso nao significa virar especulador - significa nao ficar totalmente exposto ao acaso do cambio.
A defesa estrutural: eficiencia
Ha um aspecto da margem que independe completamente do cambio: a sua eficiencia de producao. Nao importa se o dolar esta a 5 ou a 6 - produzir mais por hectare, desperdicar menos insumo e perder menos na colheita sempre melhora o seu resultado. O cambio voce nao controla. A eficiencia da sua operacao, sim. Por isso, enquanto o mercado oscila com a volatilidade cambial, o investimento em produtividade e em reducao de desperdicio e a base solida da margem - a parte da equacao que esta nas suas maos.
Entender para decidir melhor
O produtor que entende a dinamica cambial decide melhor: sabe que dolar alto na hora da venda ajuda, que comprar insumo com dolar baixo e vantagem, e que a eficiencia e a blindagem que vale em qualquer cenario. Nao e preciso ser economista - e preciso entender que, no agro brasileiro, o dolar esta sempre na mesa, dos dois lados da conta.
Nota
Este artigo tem carater educativo e nao constitui recomendacao de operacao financeira ou cambial. Decisoes de trava de preco, cambio ou comercializacao devem considerar seu perfil de risco e, idealmente, orientacao de profissional especializado.
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